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| Filhos: por eles, a gente aguenta (ou não?) |
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| Escrito por Mulher 7x7 | ||||
| Qua, 28 de Março de 2012 14:55 | ||||
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Havia um mistério em torno daquele sono iniciado às 19h e interrompido, quase sempre, à uma, depois às duas, e não sei mais a que horas da madrugada. A caçulinha acordando às 5h30, te deixando exausta é uma saga, quase universal, de pais cansados que tentam desvendar o mistério do próprio cansaço quando, na verdade, toda história é um causo misterioso de tirar o fôlego que a gente encara assim: A mãe olha duas perninhas pequenas e pensa “não é possível tanta muriçoca na escola”, e deixa ordens expressas para passarem repelente na criança, nas duas, aliás, não esqueça, por favor, comenta inclusive na reunião da escola, mas que tanto mosquito tem aqui, gente, e amaldiçoa mentalmente cada espécime que persegue sua pequena, deixando uma trilha de calombos cada vez maiores e inchados, “típicos de muriçoca”, a pediatra te explica, e você levanta de madrugada, com a criança reclamando que tá doendo, enquanto a outra dorme, aí faz massagem com o gel contra calombos de muriçocas, a criança relaxa e volta a dormir, como ela havia combinado, até o sol raiar, e por que, meu Deus, por que o sol raia antes das seis da manhã, você pede para a criança não levar essa promessa assim tão ao pé da letra porque mamãe e papai tão cansados, precisam dormir, entendeu, entendi, ela diz, mas a rotina de acordar 5h30, de massagear o calombo, de amaldiçoar os mosquitos e de passar repelente continua até você chegar em casa, pegar a filha acordada ainda, brincar, cuidar, botar pra dormir e se tocar que é preciso contar os calombos. A estratégia revelaria, na manhã seguinte, a presença de mais picadas, e só então cai a ficha, os mosquitos estão aqui, dormindo conosco, em nosso lar, vamos caçá-los custe o que custar.
No dia seguinte, missão cumprida, sua auxiliar telefona exultante para o seu trabalho,te tira da reunião e conta ter assassinado quatro mosquitos gordos de sangue, o sangue da sua pequena, dormindo pacíficos em cima do armário, só esperando a noite chegar, malditos, para atacar, dar o bote, mas você sorri com gosto de sangue na boca, pensando, estão mortos, liquidados, está tudo resolvido, hoje finalmente eu vou dormir, nós vamos dormir, marido e mulher comemoram assim que se encontram à noite, só faltou brindar, doce prazer o do descanso antecipado, depois de tantas madrugadas interrompidas, tantas que nem se lembram mais, quando deitam exaustos e felizes, tão relaxados que se esquecem da fralda… Aí, de madrugada, lá está ela, a criança em pé ao lado da cama chateada porque molhou o pijama, ela avisa, o que você nega, não, bebê, você tá sonhando, voltapracaminhaporfavor, você diz rouca, naum tô NAUUUMMM, ela grita, aí pai levanta, mãe não consegue mais se mexer de tanto cansaço acumulado, e de lá pai conta que é verdade, tá tudo molhado, vem ajudar, e você tem pesadelo com o colchão molhado porque só pode ser mentira isso, ter que levantar de novo, mas você vai lá e pega a filha que fica resmungando sem parar uma ladainha sem sentido enquanto pai arruma a cama e você limpa o bumbum dela em pé no banheiro escuro para não assustar o sono tão delicado, chega filha, shhh, shhh…tá tudo bem, foi um acidente, e filha finge chorar, até que ela para de repente pra te contar sorridente que zelo vila água, você concorda, como concordaria com qualquer coisa àquela altura do campeonato, mas quem te ensinou isso, sobre gelo virar água, você quer saber, ela ri e responde misteriosa ninguém, e com cama limpa e tudo arrumado ela volta a dormir, menos você que tem uma viagem de ida e volta a Brasília no dia seguinte, a hora está passando, e você se pergunta arrependida por que não dormir lá, isso será tão cansativo, ainda mais carregando junto a filha mais velha para um passeio tão bate-e-volta, e a insonia chega impávida a reboque das suas preocupações, tomando conta da sua mente tagarela, e você sente raiva porque isso lá é dia para dormir mal com mosquitos mortos? Mas Inês também é morta e quando você cai no sono, o dia amanhece, e a criança aparece molhada de novo, como assim de novo se ela acabou de fazer xixi, foi que vocês não colocaram a fralda porque pensaram, agora que já fez, não fará de novo, mas fez, aí é tarde, você tem de levantar de vez, viajar e o vôo da volta atrasa e quando chega, você pensa quero ser café com leite na brincadeira, vou dormir até meio-dia ou vou pifar e fica sonhando com a cama, enquanto filha mais velha enrola, tem fome e pede atenção, até que na hora de deitar, quando tudo é silêncio, você ouve uma tosse barulhenta do quarto ao lado e põe a mão na testa da filhinha pequena que dormia. Um calor irradia da testa dela por todo o seu braço que, como um termômetro, reage com um alerta inequívoco “é febre”, luzes e alarmes disparam na sua cabeça, uma febre que sobe rápido e que não aparecia havia tanto tempo que você não sabe nem quantas gotinhas dar do remédio, caramba, e dá de procurar bula, fazer compressa e botar mão na testa de novo… A essa altura, há uma lufada de adrenalina circulando pelo corpo e pela casa, deixando pai e mãe alertas e afugentando o tal do cansaço, até a febre baixar, a criança suar e você encarar aquela garotinha mole e indefesa, segurar naqueles dedinhos pequenos e frágeis, ávidos por seus cuidados, e quando ela dorme um pouco mais fresca, você finalmente começa a relaxar, o cansaço volta, você tira um cochilo rápido, levanta, tira outro, levanta para checar a febre, dorme só mais um pouquinho de nada, até que, na manhã seguinte, mesmo debilitada, a garotinha continua acordando cedo, e te chamando sorridente e pedindo teu colo, se recusa a comer, mas bebe água, e é uma alegria danada porque bebe água, e tem gente que se pergunta como é que a gente pai e mãe aguenta, não é, e eu respondo, aguenta sim, aguenta…porque filho da gente…sabe o amor? Pois é… Fonte: Mulher 7x7
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